Gestão de recursos

Maiores desafios para o segundo semestre

Edição 06

Com retorno acima das metas no primeiro semestre, regimes próprios traçam estratégias para enfrentar cenário mais desafiador na segunda metade do ano

O ano começou com uma promessa para os RPPS: um pouco de calmaria depois da tempestade de metas não alcançadas em 2015. Passada a primeira metade de 2016, as tendências ainda são positivas, mas os rendimentos não devem vir tão facilmente, como alguns poderiam imaginar. Os gestores se dividem em estratégias diversas, desde apostas mais conservadoras em fundos DI até mais arriscadas como o alongamento das carteiras de renda fixa e o aumento da renda variável.
Os seis primeiros meses foram bastante positivos neste sentido, ainda que com um pouco de emoção. “No primeiro trimestre, vimos um arrefecimento da inflação constante, que fez com que os regimes superassem a meta atuarial com uma distância cada vez maior”, resume Vinícius Lemos, economista da Trinus Capital (ver tabela). No segundo trimestre, esta tendência ficou menos evidente, diz, e os ganhos já não foram tão altos. No saldo final, porém, os resultados foram positivos na primeira metade de 2016.
O cenário atual indica que o momento pode se tornar mais favorável para carteiras de prazos maiores. Esta talvez seja uma confirmação de um contexto que já vinha se desenhando. “No primeiro semestre, quem se expôs a ativos de mais longo prazo conseguiu rendimentos melhores. Os que foram mais conservadores, com carteiras curtas, bateram metas, porém com um retorno limitado”, diz Lemos.
Buscar a estratégia de alongamento, porém, exige mais apetite – e muita calma. “Desde que tivemos uma definição da nova equipe econômica, começamos a recomendar aos regimes um alongamento da carteira. Isto, porém, tem que ser feito de forma muito paulatina, aproveitando o movimento das taxas de juros aos poucos, justamente por conta de toda a indefinição no cenário”, diz José Eduardo Toledo, economista-chefe da Plena Consultoria.
Um exemplo de olhar aguçado para buscar estas janelas vem de Claudio Sadi Deon, gestor do Fundo de Aposentadoria dos Servidores do município de Bento Gonçalves (FapsBento), no Rio Grande do Sul. “Nossa carteira tem atualmente forte participação de títulos curtos. Porém, estamos apenas esperamos uma boa janela de entrada para alocar mais recursos em títulos longos”, diz.
A estratégia no instituto sempre foi essa, ficar de olho no mercado e em contratos de DI futuro (indicador que sintetiza a expectativa do mercado para juros) para achar janelas de entrada e saída. “Fazemos aportes em momentos de maior stress que é quando as taxas se valorizam. Mas temos uma regra fundamental para isto funcionar, de nunca realizar prejuízo. Por isto, também é importante olhar com atenção as janelas de saída”, afirma o gestor.
A estratégia ousada tem funcionado – e muito. No primeiro semestre, a rentabilidade do regime foi de 12,98%. “Estamos conseguindo colher os frutos. Vamos continuar caprichando para buscar atingimento da meta no ano”, diz Deon. Em Bento Gonçalves, o RPPS tem 1846 servidores ativos, 949 aposentados e 107 pensionistas e conta com um patrimônio líquido estimado em R$ 337 milhões.
Fazer mudanças de rota na renda fixa pode funcionar, mas isso não significa que a realocação constante de recursos seja sempre a melhor estratégia. Em Acreúna, município de Goiás, os títulos de prazo mais longo já estão contemplados na carteira e a manutenção dos investimentos atuais se mostra uma escolha válida. “Temos uma tendência a sermos mais conservadores. Às vezes é preferível manter as aplicações em algo que renda menos, porém mais seguro, do que mudar para algo mais volátil”, resume Ricardo Pereira Brito, gestor do Ipasma, instituto de previdência de Acreúna.
Brito conta que a maior parte dos recursos do fundo está alocada nos títulos públicos NTN-B (16,96% até o final de maio) e NTN-F (11,32%). Raramente acontecem realocações, mas quando há a oportunidade, elas são feitas de maneira muito gradual. Com a estratégia, o regime de 780 servidores ativos, 201 aposentados e pensionistas e patrimônio estimado superior a R$ 25 milhões, acumulou rentabilidade de 8,69% entre janeiro e maio (dado mais recente disponível), período no qual a meta ficou em 6,61%, diz o gestor.
Outro exemplo vem do Instituto de Previdência Municipal de Perdizes, em Minas Gerais. “Desde o final do ano passado, começamos a montar uma carteira de longo prazo, com resgates de pelo menos cinco anos. Observamos que isso estava dando certo e decidimos manter assim para o segundo semestre”, diz a superintendente do RPPS de Perdizes, Vanessa Flausino Dias Oliveira.
A estratégia refletiu num rendimento de 8,36% no primeiro semestre, superando a meta fixada com base no IPCA +6%. Para a segunda metade de 2016, diz Vanessa, o alongamento será mantido. “Também não devemos montar posição em títulos atrelados à Selic, pois tudo indica que os juros devem começar a cair ainda neste ano”, afirma a superintendente. O regime tem investimentos estimados em R$ 6,5 milhões, segundo dados do Cadprev atualizados até maio.

Incertezas – Com os resultados do primeiro semestre, o setor ganhou fôlego. Mas as dificuldades devem se evidenciar no segundo semestre. Os RPPS - assim como o mercado em geral - provavelmente nunca tiveram tantas coisas para colocar numa balança antes de fazer suas aplicações. “Hoje uma série de fatores estão influenciando diretamente nos investimentos, desde o cenário internacional até o momento político do Brasil”, resume Joel de Barros Bittencourt, superintendente do Instituto de Previdência do Município de Suzano (IPMS), que conta com cerca de 4,5 mil servidores ativos, tem um patrimônio líquido de quase R$ 160 milhões.
Como lembra Bittencourt, os regimes agora têm de equilibrar nas estratégias temas que vão de possíveis mudanças na zona do euro, com a saída do Reino Unido, até a concretização ou não de um processo de impeachment no Brasil.
A instabilidade atrasa um critério básico. “No centro de tudo, está a questão da volta da confiança. Só com ela é que deve haver uma retomada dos investimentos do setor privado, queda no desemprego e quem sabe até uma indicação de crescimento”, diz José Eduardo de Toledo, da Plena Consultoria. Com ou sem incerteza, é hora de começar a traçar as estratégias para o segundo semestre.
Na balança, outros pontos mais devem entrar. O tão esperado corte de juros, que o mercado agora antevê que demore um pouco mais a chegar, é um exemplo. A taxa básica Selic, que desde julho de 2015 está em 14,25%, pode até cair, mas dado o adiantado do ano, não deve haver uma redução muito brusca. “Os regimes continuam otimistas pois ainda podem aplicar um montante relevante em fundos indexados à Selic”, diz Lemos, da Trinus. Segundo ele, ainda que aconteça um corte neste ano, investimentos atrelados ao indexador ainda oferecem segurança com uma rentabilidade próxima das metas atuariais de 2016.

Bento Gonçalves aposta em fundos de ações

Aplicar ou não aplicar na volatilidade da bolsa continua sendo uma questão importante para os RPPS. Neste ano, a possibilidade ficou ainda mais tentadora. Nos primeiros seis meses de 2016, o Ibovespa, índice que reúne as principais ações da bolsa de valores, teve uma valorização acumulada de 18,8%.
Mas antes de colocar as fichas na renda variável, é importante considerar alguns pontos.
O primeiro deles é lembrar que a alta no primeiro semestre do ano vem depois de uma forte queda acumulada de 13,3% em 2015. Isto prova que nem sempre a colheita será de bons frutos e é preciso estar preparado para as oscilações.
O segundo é lembrar que aplicar no mercado financeiro significa estar constantemente atento para este investimento e pensar no longo prazo.
No RPPS de Bento Gonçalves, a estratégia de aplicações ousadas se reflete também na renda variável. Cerca de 20% da carteira está nesta categoria, um volume bastante relevante para o que costuma acontecer no setor. “Até é possível fazer trades curtos, mas este ano mudamos pouco nossa posição em renda variável”, diz Deon. Ele afirma que boa parte das posições em ações o regime vem carregando desde 2015 – quando a bolsa caiu e ficou “barata”– e as mudanças aconteceram muito mais no reposicionamento da renda fixa. Aqui, a regra do buscar boas janelas de entrada e saída também se aplica constantemente, diz o gestor financeiro.