Gestão de recursos

Greve dos caminhoneiros e indefinição eleitoral impactam negativamente os resultados dos RPPS

seprevNo Seprev, regime próprio do município de Indaiatuba, a rentabilidade da carteira de investimentos foi de 4,58% no acumulado do ano até abril, para uma meta atuarial de 2,68% no período. No acumulado até maio, com o início da greve dos caminhoneiros, a rentabilidade caiu para 2,37% enquanto a meta subiu para 3,60%. E no acumulado até junho a queda acentuou-se, somando 2,19% de rentabilidade e 5,62% de meta no período. “Não me lembro de um primeiro semestre tão ruim como esse", afirma o diretor financeiro do Seprev, Marcos Barce, há 15 anos no cargo.

Com um patrimônio de R$ 1,19 bilhão e cerca de cinco mil segurados, o Serprev estuda a redução da sua meta atuarial a partir de 2019. Segundo Barce, o processo de revisão das metas é necessário diante do quadro que se desenhou nos últimos dois meses e da expectativa de que os juros não voltarão aos elevados patamares de alguns anos atrás. “Em 2018 dificilmente conseguiremos bater a meta, nosso objetivo maior é proteger os recursos existentes, sem grandes movimentações da carteira, para evitar uma perda”, constata o especialista.

Barce pontua, contudo, que a mudança nas metas não é um movimento simples, com uma série de reflexos em decorrência dessa decisão. “Ao reduzir a meta o RPPS admite que os recursos oriundos do retorno dos investimentos serão menores, com uma provável necessidade de aumento das contribuições dos servidores”.

Embora reconheça a dificuldade da maior parte dos institutos em bater suas metas em 2018, o consultor da Par Investimentos, Renan Calamia, se mostra cético quanto a possibilidade de um movimento maciço de redução das metas por parte dos RPPS a partir de 2019. “Tecnicamente, reduzir a meta seria o correto por conta do cenário para os próximos anos, mas o RPPS tem um problema ao tomar essa decisão porque ela implica em um aumento do custo atuarial para o instituto e o ente federativo”.

 

Investimentos - A carteira do Seprev está majoritariamente alocada em renda fixa, segmento que responde por cerca de 90% dos recursos do instituto. Os 10% restantes estão divididos entre renda variável e multimercados, sendo que as ações representam aproximadamente 6,5% do total. Mas diante das inúmeras incertezas à frente, aumentar as alocações em renda variável não é uma opção que tem sido considerada pelo Seprev. “Não vamos aumentar a exposição em bolsa, mas também não vamos zerar para não perder uma eventual recuperação desse mercado”.

As principais alocações do RPPS estão em fundos de gestão ativa de renda fixa. “Temos privilegiado fundos que não tenham tanta volatilidade, que não sejam tão conservadores quanto os DI e nem tão agressivos como os fundos de ações”, pondera o diretor do Seprev. Segundo ele, a proximidade das eleições e a falta de definições mais claras sobre os candidatos promete fortes oscilações nos preços dos ativos nos próximos meses.

Dilema - No Instituto de Previdência e Assistência Municipal (Ipam) de Caxias do Sul, com Patrimônio Líquido (PL) de aproximadamente R$ 391 milhões, o movimento em busca de risco teve início no começo de 2018, com o aumento da exposição à renda variável, que passou de 5,2% para 10,8%, e em fundos multimercados, de 1,51% para 4,57%.

Essa estratégia, contudo, não tem se traduzido em resultados positivos para o RPPS de Caixas, que assim como seus pares não conseguiu o rendimento suficiente para fazer frente à meta atuarial no primeiro semestre. De janeiro a junho a rentabilidade do portfólio do Ipam foi de 1,71%, que representa só 30% da meta de 5,62% para o período. “Desde a queda da Selic temos sofrido na questão dos rendimentos”, afirma André Wiethaus, presidente do RPPS.

Para o segundo semestre, pondera o dirigente, o instituto vive um dilema: por um lado precisa manter a busca por risco para compensar o fraco desempenho do primeiro semestre, mas por outro precisa também de certa cautela diante da volatilidade esperada por conta do pleito presidencial.

O presidente do RPPS explica que por determinação do Tribunal de Contas do Estado os institutos de previdência do Rio Grande do Sul só podem trabalhar com bancos públicos. Por essa razão, o Ipam tem em sua carteira somente fundos do Banco do Brasil, Caixa, e Banrisul.

Bolsa – No Instituto de Previdência Municipal de Praia Grande (IPMPG), a presidente Regina Mainente afirma que a carteira de investimentos vinha obtendo um bom rendimento até meados de abril, com retorno 66% superior à meta do período. Com a mudança de cenário após a greve dos caminhoneiros os ganhos minguaram e a rentabilidade acumulada no primeiro semestre ficou em 1,06% para uma meta de 5,55% no período. “Em  maio, com o desabastecimento do mercado e o recuo no crescimento do PIB, perdemos 120% da rentabilidade”.

Apesar do mercado de ações, que representa 11% dos recursos do IPMPG, ter sido um dos principais responsáveis pela fraca rentabilidade, Regina nota que, para conseguir bater a meta, “vamos  ter que nos arriscar ainda mais em renda variável”.

Além da bolsa, a dirigente cita os fundos de BDRs, que tiveram um rendimento positivo, com valorização próxima de 13% no primeiro semestre, como outra alternativa que deve contribuir para a recuperação dos investimentos do instituto nos próximos meses. “Uma vantagem de investir em BDRs é a possibilidade de diversificação dos investimentos, aplicando de forma indireta em ações estrangeiras sem a necessidade de fazer operações de câmbio ou possuir contas de custódia no exterior”, afirma Regina. Ela também cita os fundos de ações de valor como outra opção interessante nesse momento econômico.

Conservadorismo – No instituto de Santa Fé do Sul, o SantaFéPrev, o enredo não tem sido muito diferente em relação aos seus pares – de janeiro a junho o retorno alcançado pela carteira de investimentos foi de 1,64% contra uma meta para o período de 5,59%. “Dadas as quedas nos retornos das aplicações em IMA, o desempenho não deve ser motivo para comemorações”, afirma o presidente do RPPS, Ronaldo Salvini.

O dirigente lembra ainda que no início do ano as avaliações de consultores indicavam que as aplicações em renda variável teriam impacto positivo em 2018, “o que não está ocorrendo, principalmente na estratégia de small caps, que caiu quase 10% no primeiro semestre”.

Diante desse cenário, o dirigente pontua que o SantaFéPrev vai se manter bastante conservador em suas aplicações, sem pretensão de realizar movimentações em sua carteira de investimentos no segundo semestre. “Nossas movimentações financeiras na indústria de fundos são feitas com muita cautela para que o patrimônio seja preservado”.