Renda fixa

Gestão ativa permite ganhos com arbitragem de vencimentos

Edição 18

Estratégia seguida pelas assets é comprar cotas de fundos alocados em títulos governamentais de diferentes vencimentos, rebalanceando as carteiras regularmente para reduzir a volatilidade e gerar alfa para o institutos de previdência

Nos últimos meses os dois principais gestores de recursos de RPPS, respectivamente Caixa e BB DTVM, apresentaram significativa captação de recursos desse público por meio de fundos de renda fixa de gestão ativa. Esses fundos fazem operações de arbitragem usando títulos públicos de diferentes prazos de vencimento, tentando tirar proveito de eventuais distorções no mercado de juros para agregar alfa ao portfólio. Do final do ano passado até outubro de 2017 a Caixa e a BB DTVM captaram cerca de R$ 2,4 bilhões de institutos de previdência para seus fundos de renda fixa de gestão ativa de títulos públicos.
Como a renda fixa ainda é parcela predominante no portfólio dos RPPS, e a queda dos juros impacta fortemente a rentabilidade dessas carteiras, os gestores esperam uma boa aceitação dos fundos de títulos públicos de gestão ativa. Tanto é que, no embalo do sucesso do produto entre os grandes bancos, assets independentes como Austro e Multinvest também estruturaram produtos nos mesmos moldes para tentar morder uma fatia desse bolo.
No final de agosto do ano passado a BB DTVM estruturou seu fundo de gestão ativa em títulos públicos, que é um fundo de fundos que compra cotas de três estratégias geridas pelos profissionais da asset e que tem como benchmark o IMA-Geral; uma das estratégias baliza suas operações de mais curto prazo adotando como referencial o IRF-M1, enquanto a que opera títulos de médio prazo utiliza o IRF-M como referencial, e a que atua mais voltada para o longo prazo utiliza o IMA-B.
No acumulado de 2017 até setembro, o fundo de fundos da BB DTVM obteve rendimento de 11,4%, superando o IMA-Geral em 0,035% e correspondendo a 141,8% do CDI. O fundo teve boa receptividade junto aos RPPS, que alocaram cerca de R$ 2 bilhões no produto até o momento, sendo R$ 1,2 bilhão considerando apenas 2017. A BB DTVM inclusive avalia no momento adaptar a estrutura do fundo para receber recursos de outros perfis de investidores, como fundos de pensão e mesmo do private.
“Esse fundo é uma solução interessante dado que os institutos de previdência podem contar com a expertise e know-how da BB DTVM para otimizar a alocação de acordo com nossa percepção sobre a variação de alguns dos principais índices de mercado”, afirma Carlos André, diretor executivo da asset do Banco do Brasil. “Na prática com esse fundo o RPPS não precisa ele mesmo ficar se preocupando com esse tipo de balanceamento, a gente faz isso de acordo com nossa percepção de mercado”, acrescenta o executivo.
Segundo ele, o timing do lançamento do produto veio no momento em que a asset percebeu que a alocação passiva dos RPPS em títulos públicos, de comprar e simplesmente esperar até o vencimento, não seria mais suficiente para fazer frente às metas atuariais dos institutos. O diretor da BB DTVM conta que nos últimos meses as estratégicas em IRF-M e IMA-B foram as que mais trouxeram retorno para o fundo, uma vez que elas foram as mais beneficiadas pelo fechamento das taxas, tanto do juro nominal como também do real, observado recentemente no mercado.
O diretor da asset diz também que, na visão dos analistas da gestora do BB, ainda há espaço para um fechamento adicional da curva de juros, principalmente nos vencimentos de prazo médio, entre 2021 e 2022. Carlos André ressalta que o fundo não faz mudanças de suas posições numa freqüência e intensidade muito grande, até para evitar um aumento excessivo da volatilidade do portfólio. “Fazemos um acompanhamento próximo e em bases mensais revisamos as alocações para fazer ajustes de acordo com nossa leitura do mercado”.
Já a Caixa estruturou em novembro do ano passado seu fundo de fundos que compra cotas da família de 13 fundos do banco destinados aos RPPS. São fundos que fazem operações de arbitragem entre os diferentes prazos dos títulos públicos, tanto na curva de juros nominal pré-fixada como na curva de juros real composta pelas NTN-Bs. “Fazemos operações de arbitragem nos fundos indexados, que seguem como benchmark o CDI, o IRF-M e também a maioria dos índices da família IMA”, explica Fabiano Zimmermann, gerente nacional de fundos de renda fixa da Caixa.

Asset allocation – O fundo de fundos da Caixa, que compra as cotas desses fundos indexados, acumula hoje aproximadamente R$ 400 milhões de patrimônio líquido oriundos de RPPS. Zimmermann ressalta que esse FIC opera através do ‘asset allocation’, buscando as melhores operações de arbitragem dentre a seleção de fundos da Caixa a depender do cenário prospectivo à frente. “Se o cenário esperado é mais negativo, encurtamos a carteira, e se tivermos uma expectativa mais positiva, migramos a alocação para fundos que tem um prazo maior”, afirma o gestor. “A geração de alfa nesse fundo de fundos vem do trabalho de alocação entre os fundos de renda fixa que temos, em que ficamos operando com os diferentes prazos dos títulos”, acrescenta o especialista.
Os diferentes fundos de renda fixa indexados fazem arbitragens entre os mais diversos prazos das curvas de juros, sempre buscando superar seus respectivos benchmarks, comenta o gerente da Caixa. O FIC já acumula rentabilidade de 9,8% desde seu lançamento, em novembro de 2016, até meados de outubro. Isso equivale a aproximadamente 130% de seu benchmark, que é IPCA mais 6%, estabelecido pelo banco para casar com as metas dos institutos de previdência.
Zimmermann explica que os fundos ativos de renda fixa, por assumirem uma posição comprada em determinado papel e vendida em outro, se assemelha a um fundo ‘long and short’ e mantém menor correlação com os grandes movimentos do mercado. “Com isso o investidor diminui sua exposição ao risco, por que está exposto a um trecho específico da curva de juros”. Com as eleições de 2018, quando a volatilidade dos mercados sempre aumenta, Zimmermann entende que os fundos de arbitragem podem gerar ao longo do próximo ano um importante retorno excedente à carteira dos investidores na comparação com os benchmarks, que ficarão à mercê das notícias diárias envolvendo os candidatos à presidência. “Esses fundos transferem para o gestor o trabalho de análise prospectiva que ficaria à cargo dos RPPS de entender o cenário para os próximos meses e a partir daí decidir qual melhor posicionamento para a carteira de renda fixa”, afirma o gerente da Caixa.
O consultor Renan Calamia, da Par, lembra que para aqueles institutos de previdência mais conservadores, que devem manter uma parcela relevante de seu patrimônio em títulos públicos, a possibilidade de alocar parte de seus recursos em fundos que fazem gestão ativa da duration dos papéis soberanos emitidos pelo governo aparece como uma alternativa interessante. “São fundos que enxergamos com bons olhos, que costumam gerar alfa em relação a uma carteira tradicional de títulos públicos”, pontua o especialista.

Independentes – A Multinvest, gestora do Recife focada em RPPS, estruturou em julho de 2016 seu fundo de renda fixa de gestão ativa, um FIC que compra subíndices como o IMA-B 5+ e o IRF-M1, que variam na carteira a depender do cenário e das perspectivas à frente. “Víamos a dificuldade dos RPPS em se adequar ao mercado na velocidade necessária para defender a carteira em momentos de alta dos juros, ou alongar quando os juros fecham, e por conta dessa lacuna observada resolvemos estruturar o fundo”, explica Leandro Campos, gestor da Multinvest.
Desde que o fundo foi estruturado, e que atualmente soma PL próximo de R$ 32 milhões, a gestora do Recife manteve a maior parte do tempo sua principal exposição no IMA-B 5+, para tirar proveito do fechamento dos juros. Mais recentemente, diante do recrudescimento do quadro político e da queda dos juros, a asset optou por reduzir a duration da carteira, aumentando sua posição no IRF-M 1. “Entendemos que o risco está bem alto, e o mercado tem ignorado isso”, pondera o profissional. Desde seu lançamento o fundo da Multinvest rende cerca de 20%, ficando um ponto percentual acima de seu benchmark (IMA). O gestor nota que a gordura frente ao referencial já foi maior, mas a cautela adotada recentemente, que contrasta com o otimismo do mercado, causou uma redução dessa folga.
Campos diz que a expectativa da casa é chegar ao final do ano com R$ 50 milhões sob gestão no fundo, e alcançar R$ 100 milhões durante 2018. Ele destaca que, por se tratar de ano eleitoral, a volatilidade na renda fixa no ano que vem deve aumentar consideravelmente, o que vai permitir a continuidade das operações de arbitragem entre as durations dos títulos, apesar do patamar da Selic, que deverá estar próxima de sua mínima histórica nos próximos meses. “Sempre que sair alguma pesquisa de intenção de votos vai ter impacto nos juros, então faz mais sentido o investidor ter um fundo de gestão ativa do que comprar um título ou um subíndice e deixar na carteira”.
Também de olho na demanda dos RPPS por produtos de maior valor agregado para fazer frente à queda da taxa de juros, a Austro Capital, gestora sediada em Porto Alegre com cerca de R$ 500 milhões em ativos sob gestão de institutos de previdência principalmente da região sul, lançou no início de outubro dois novos fundos. Um deles é um fundo de fundos que vai comprar no mercado cotas de fundos de outras assets que fazem a gestão ativa de títulos públicos, e o outro é um fundo que vai ter 60% da mesma estratégia do anterior, e com os outros 40% alocados em FIDCs abertos. A expectativa da asset é alcançar até meados de 2018 cerca de R$ 100 milhões de PL em cada um dos fundos. Além disso, a Austro também lançou em outubro um fundo de ações, que será gerido por Rafael Weber, contratado pela casa para tocar o novo produto.

Liquidez – “Até então trabalhávamos com produtos estruturados, e decidimos montar produtos com maior liquidez aos investidores que estão em busca de retornos acima da meta, mas com a segurança da renda fixa”, afirma Guilherme Bunse, diretor comercial da Austro. “Nosso trabalho é selecionar quais são os melhores gestores ativos de títulos públicos no mercado, aqueles que conseguem de forma consistente bater o benchmark”, comenta Leonel Salomon, diretor responsável pela gestão dos fundos da Austro. O benchmark dos dois fundos da Austro, assim como o da Caixa, será a meta atuarial da maior parte dos RPPS, de IPCA mais 6%.